segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Deficiente sim, coitado não


Um pequeno texto para duas pessoas que conheci um tempinho atrás: a mãe que descobriu esse ano que a filha de 5 anos tem surdez. Esse texto é pra vocês.
 
                      
          Tinha me esquecido que é hoje é o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. A gente não compreende a deficiência até ter um filho, um pai, uma mãe ou um irmão deficiente. Ninguém entende essa condição até conviver com ela.  Resolvi compartilhar um pouco desses 21 anos que eu me descobri deficiente auditiva. E já digo de início que não foi fácil. A deficiência começou aos 4 anos de um lado e depois fui perdendo gradualmente a audição até ser bilateral, com o diagnóstico de severo a profundo. Pra entender como funciona o ouvido nesse caso, é só tapar os dois lados e pronto. E aí se alguém gritar perto do seu ouvido, talvez você possa ouvir algo. É mais ou menos assim que funciona no meu caso. Foi sorte não ter tido um trauma na infância em relação à perda, já que vivia um pouco isolada do mundo e das crianças. Mas durante a adolescência, período de afirmação de identidade, foi a pior experiência: a gente nunca se aceita como é e ainda mais sendo deficiente. Estudava em uma escola tradicional, com grupos diferenciados e eu me encaixaria em que grupinho? Coloquei na cabeça que queria ir para uma escola especializada, que meu lugar não era ali. Felizmente, alguém acreditou em mim - "Você é capaz como qualquer um". Mas foi um período difícil. Sempre idealizando amores como qualquer garota de 15 anos, com as mesmas dificuldades de todo mundo e tentando de qualquer jeito ser "aceita" na turma. Essa foi a pior fase. Mas já passou. Apenas ficaram lições. Hoje sou formada, professora concursada e estudante de música. Raramente precisei de cotas na minha vida, apesar de considerá-la importantíssima no processo de inclusão social. Minha intenção nesse texto é tentar mudar a imagem do deficiente como pobre coitado, como era tratado nos tempos de Hitler (esse com a "normalidade" de mandar matar todos com deficiência mental e física). Nós não somos coitadinhos, somos parte dessa sociedade. Nós aprendemos com ela e ela aprende conosco. Se não for assim, ninguém vai saber como é bom desligar o aparelho auditivo dentro de um ônibus lotado, sentir as vibrações do som e nem o quanto é tão 007 ler os lábios dos outros com óculos escuros. Tudo tem seu lado positivo, o grande lance é encontrá-lo. Só isso.



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O primeiro luto



Na vida tudo tem uma primeira vez. Primeiro choro, primeira papinha, primeiro aniversário, primeiro banho. Mas não sabia que existia o primeiro luto. Fui saber hoje.

                
                     Dias antes eu estava checando umas passagens e só marcava no calendário dia 16, dia 16, dia 16... E mal sabia o que me esperava. De malas prontas, presentes comprados, passagens adquiridas três meses antes, aulas antecipadas na escola, ansiosa pra ver meu amigo desde os tempos da 6ª série se formar na UFRJ. Ele conseguiu o que sonhávamos tanto. Meu coração estava feliz, mas também apreensivo. Apreensivo porque uma parte de mim estava aqui em São Luís. Uma parte estava lá no hospital com a minha avó. Apesar de tudo, eu viajaria confiante na sua recuperação. Mas exatamente três horas antes de viajar, recebo a notícia que ela tinha acabado de falecer. Desabei. Ela se foi. Essa fase da negação é a pior que existe.    "- Não, ela não morreu!”  A dor de perder alguém que a gente ama é como carregar infinitas toneladas nas costas. Você tenta se reerguer, mas o peso continua ali. Foi a primeira vez que senti o luto. E por ser o primeiro luto, eu não sabia lidar com ele. Era minha avó que estava ali na minha frente, esperando pra ser levada de volta pra cidade dela, minha terra natal. Antes ela era tão quentinha, com os cabelos brancos e se acabava de rir das minhas molecagens. O som do sorriso era gostoso de ouvir. Hoje, eu a vi deitada, dura, fria, inchada e sem emoção nenhuma. Imaginei minha mãe, imaginei meu pai, imaginei que um dia vai ser eu quem vai estar no lugar deles.  E eu nunca vou entender esse processo e porque isso tem que acontecer, por nenhum motivo sequer. Só tenho perguntas. E elas nunca serão respondidas. Sempre falam que é a vida, faz parte, é a ordem natural etc. Mas não me peçam pra engolir. O gosto é amargo demais. Eu olho pra cima e pergunto pra Ele: por que e para quê? Hoje caiu a ficha de que nada é pra sempre e eu talvez vou viver mais situações como essa com outras pessoas que eu amo. E que nunca vou estar preparada. Nunca. Hoje eu perdi o avião, perdi a minha avó, perdi o dia. A correria das horas de toda quinta-feira se transformou em um filme rodado em câmera lenta. Cada segundo passava devagar, como se o dia não quisesse acabar. E não acabava. Só tenho uma esperança de que um dia vamos nos encontrar. E vamos rir muito. Mas muito mesmo.

Para minha vó Jodina. 
O peixe assado que eu prometi que íamos comer depois da sua recuperação ainda está aqui. 
Mas vá em paz vó. Te amo pra sempre.

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